Almost a portrait... (Quase um retrato...)












O retrato sempre foi em fotografia um género privilegiado que, assumido como um espelho da realidade, encontrou inicialmente a sua vocação na identificação, registo e arquivo, preenchendo uma lacuna da pintura.

No entanto a sua mentira cedo se revelou nos gostos particulares dos clientes dos fotógrafos comerciais, com poses em cenários artificiais, e retoques para eliminar problemas fisionómicos.

Estava aberta assim toda uma reconfiguração plástica à volta do retrato que deixava de ser um puro registo para passar a ser um campo de interpretação e de possibilidades que teve na inquietação, no bizarro, na ficção ou na ambiguidade, uma expansão da sua dimensão narrativa.

Exemplos disso são as reivindicações do retrato psicológico, da captura da alma do retratado, nas imagens de Yousuf Karsh, que contrasta com a pura captura da fisionomia em Thomas Ruff, ou a manipulação luminosa nas imagens de Helmar Lerski (que se assumia como construtor de identidades), substituída pelas técnicas digitais em Loretta Lux, ou pela criação puramente artificial de retratos de personagens inexistentes, nas mãos de Eva Lauterlein.

Luís Conde neste conjunto de retratos explora a questão dos afectos, a troca, a cumplicidade, reunindo num único conjunto pequenos pedaços de um puzzle que se agiganta a cada dia que passa, que se expande nas relações que estabelece, que se desenvolve nas experiências que tem.

São encontros e desencontros, certezas que se mantêm, expectativas que não se concretizam, é o dar e o receber, na procura de uma identidade própria e do outro, no fugaz momento de uma imagem ou na ausência dela.

E é nesta entropia de imagens, que como um mapa é colocado à nossa frente, que se agenciam percursos possíveis de relação e auto-conhecimento, constituindo de certo modo o retorno ao mito de Narciso que mergulha na sua própria imagem reflectida na água, procurando num espelho a sua própria verdade.

José Oliveira


© Fotos Luís Conde